Separatismo na Bolívia

Um artigo recentemente publicado pelo professor Demétrio Magnoli no Estadão me chamou a atenção para um problema acerca da questão boliviana que sempre me passou despercebido. Um movimento separatista liderado pelas províncias da ‘‘meia lua’’, conhecido por Movimento Nação Camba de Libertação, promete dar contornos étnicos aos graves problemas políticos existentes entre o governo central de Evo Morales e as províncias autonomistas produtoras de hidrocarbonetos, na parte oriental do país.

O pano de fundo a atual crise surgiu à época da guerra do chaco (1932-35), entre Bolívia e Paraguai, quando as elites de Santa Cruz optaram por apoiar os paraguaios, contra o governo central boliviano. Naquele tempo a palavra ‘‘camba’’ era um termo pejorativo referenciado aos índios guaranis que habitavam as terras baixas do leste boliviano. O Movimento por uma Nação Camba surgiu, de fato, ao tempo da revolução de 1952, quando os mineiros e camponeses do altiplano conquistaram seus direitos civis.

O ressurgimento do Movimento ganhou força no presente graças ao apoio estratégico das elites das províncias de Tajira, Santa Cruz, Beni e Pando no embate contra o governo de La Paz. Os Camba se consideram etnicamente compostos pela miscigenação do branco espanhol com os índios guaranis e, portanto, diferentes culturalmente dos ameríndios do altiplano, de origem aimará e quechua.

Observadores internacionais têm observado com preocupação a etnização da agenda política boliviana. Em pronunciamento de apoio a Evo Morales, o presidente equatoriano, Rafael Correa, disse que a América Latina não permitirá a transformação da Bolívia nos Bálcãs.

O fato é que apesar de ter sido eleito com apoio da sua base sindical cocaleira, Morales adotou o discurso ameríndio do altiplano, o que tem contribuído para a utilização dos pretextos étnicos com fins meramente políticos, o que pode, segundo Magnoli, esfacelar a idéia de uma identidade simplesmente boliviana.

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