O Barão

Certa feita eu ouvi um dos meus professores de história reclamar da memória história dos brasileiros como uma memória circunscrita aos intelectuais e letrados. A minha humilde experiência me impõe a respeitosa divergência em relação ao meu mestre ginasial. Percebo que a nossa memória história sequer é circunscrita aos meramente ‘’letrados’’. Pessoas com uma boa formação acadêmica ainda carecem de um conhecimento mais profundo acerca de temas históricos supostamente de seu interesse, como a história do Estado ou do País onde vive, ou ainda, a história de fatos que influíram sobre o seu Estado ou País, sediados geograficamente em outra unidade política.

O nosso precário ensino de história tem criado grandes deformidades no conhecimento popular. Gostaria de, aqui, me ater somente à figura de um homem em especial, o Barão do Rio Branco. Ele, que tem o seu nome espalhado em praças, escolas, ruas, e na capital acreana, é uma figura ainda pouco conhecida por um povo que mal teve ciência da sua existência em tempos remotos.

Há quase cem anos morreu um dos founding fathers do Estado brasileiro. Um homem de notório saber geográfico, histórico, político e jurídico. Rio Branco foi um exemplo de cidadão que soube aguardar o seu momento com competência e perseverança. Filho do Visconde do Rio Branco, homem forte das relações exteriores do Império, teve o Barão uma educação formal e ética acima de qualquer crítica. Desde os tempos de moço, trabalhou como jornalista junto ao jornal A Nação, onde defendia as políticas territoriais do Itamaraty no período do Segundo Reinado. Nunca fora um homem de partido, mas um homem de Estado. Acreditava ele, ser antes historiador do que agente da história. Os fatos provaram que ele estava equivocado.

Enfrentou no início uma carreira conturbada. Sofreu com as insistentes negativas do Imperador Pedro II em lotá-lo no consulado brasileiro em Liverpool. Fortes amizades com o Barão de Cotegipe o garantiram no mais burocrático dos postos.

Convidado a ser o advogado do Brasil no litígio pelo território de Palmas/Misiones, usou o Barão, todo o conhecimento acumulado em numerosos anos de estudos e aprendizado junto ao seu pai. A derrota Argentina se transformaria em violenta vingança no futuro. Formalizou as fronteiras com as Guianas inglesa e francesa, pacificou e atraiu o território do Acre ao Brasil afastando a ameaça imperialista representada pelo Bolivian Syndicate. Com o Peru logrou o mesmo intento, pacificamente e sem desenvolver o sentimento revanchista.

Na conferência de paz de Haia, na condição de Ministro, enviou o grande deputado e advogado baiano Rui Barbosa para defender os interesses do Brasil e da América. Indignou-se com o tratamento desidioso das potências européias quanto aos tribunais de Arbitramento e de Presas. Protestou contra a cooptação dos Estados Unido ao bloco das potências européias no auge da Doutrina Monroe, e se recusou a participar da concertação desigual sem que houvesse a adoção do ‘‘princípio da igualdade entre os Estados’’.

Foi o Ministro das Relações Exteriores que mais tempo permaneceu no cargo (1902-1912). Não foram tempos de calmaria absoluta. Apesar de ter sido uma unanimidade dentro do Brasil, e extremamente respeitado no exterior, o Barão sofreria com os ataques de um antigo adversário argentino.

Estanislao Zeballos, que o havia enfrentado na questão de Palmas/Misiones era agora Ministro das Relações Exteriores da República Argentina. Sua derrota, na antiga questão, jamais acalmara o ímpeto agressivo e belicoso do discípulo de Alberti. Sua campanha antibrasileira envolvia o seu despeito frente à derrota no arbitramento (questão pessoal) e interesses econômicos dos produtores de armas (questão político-econômica).

Incontáveis feitos poderiam ser arrolados nesse post, porém narrá-los a todos seria tema para um livro da envergadura da biografia escrita por Álvaro Lins sobre o Barão. Impressionante o trabalho sobre a psicologia do poder de alguém por menos desejasse, não soube evitá-lo. Com ele conviveu serenamente e produziu seguramente a maior obra política desde a independência.

O legado de Rio Branco trouxe um ambiente de paz às nações sul-americanas. Essa herança tem gerado importantes frutos no tempo presente. Cabe agora aos povos, letrados ou iletrados, revisitá-lo para dar seguimento a tão grandiosa obra. A prova do pacifismo e da irmandade entre os sul-americanos precisa ser reafirmada na memória do Barão, homem de estado, e não de partidos. Brasileiro apaixonado, mas generoso e pacificador. Seu legado merece antes não ser esquecido do que lembrado, e seu espírito permanecer orientando as políticas de hoje e de amanhã.

Uma resposta para “O Barão”

  1. Samille Sousa Disse:

    O texto ficou muito bom. Mas, pensando em público web ele poderia ser mais objetivo, mais curto… focar mais a funcionalidade do que você transmitir.. é bem generosa a forma como você fala do barão…

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